A história - a historicidade - dos conceitos e categorias interpretativas da realidade, que servirão para credibilizar as narrativas historiográficas, não poderia, por evidente, ser oriunda senão do labor filosófico, que é a fonte da qual todos e quaisquer conceitos interpretativos dos quais alguma ideia de realidade provém, em última instância. É a filosofia que tem a responsabilidade pela geração, crítica e regeneração de categorias interpretativas suficientemente sólidas e conceitos formais suficientemente burilados para que os acontecimentos não se tornem, na observância livre do temor de Kant, conteúdos cegos da reflexão e do encadeamento que se pretende. E, sem dúvida, o que estamos aqui chamando de “história dos conceitos e categorias interpretativas da realidade” se estatui e se constitui como um campo de contínuas atribulações e dificuldades, em sintonia com as forças e interesses em luta que se servirão, exatamente, desses conceitos e categorias, em cada tempo e lugar, para legitimar seu agir e a concretude do efetivamente acontecido. Pois a realidade nada tem de inerte; seu âmago é a dialeticidade do que a constitui, daquilo que se dá, a cada momento, como real, e a apropriação possível do real é, no sentido aqui abordado - ou seja, filosófico em sentido clássico -, totalmente dependente do conceitual.
É, assim, em função dessas expressões de concretude, ou de expressões de realidade, se preferirmos - o que significa: do jogo de forças que as geram -, que os conceitos assumem sua dignidade propriamente conceitual, inscrevem-se em uma determinada tradição e beiram um status de autonomia. Ajudarão, em cada momento, e de acordo com as intenções prevalentes em determinada situação do jogo dialético, a legitimar ou a deslegitimar o que se apresenta, simplesmente, como verdadeiro ou como real. Pois o que se apresenta simplesmente como real ou verdadeiro a um observador casual tem uma história extremamente tensa, que se dá pela imbricação de elementos intelectuais - os conceitos e categorias em processo de formação e legitimação - com elementos concretos-temporais - as realidades que se sucedem no tempo, que vivem desde a temporalidade que nenhum conceito pode abarcar, pois é a condição de surgimento de todos eles .
II - A tensão originária-original da filosofia
Nesse sentido, a filosofia padece congenitamente de uma espécie de estranho paradoxo, que quiçá fosse melhor chamar uma tensão originária-originante, ou originária-original, pois simultaneamente dá origem e pertence a essa origem. Surgido o filosofar feito crítica, estabelece-se desde sempre e paralelamente como instância primigênia de acompanhamento, sanção e legitimação do estatuído . A tensão a habita em seu próprio aparecimento, desde seus mais remotos estertores categoriais. Se, por um lado, ocupa o papel intrínseco ao intelecto de verter-se àquilo que aparece como significativo a esse intelecto, e nesse sentido propõe-se crítica de si e de tudo, por outro lado toma para si a tarefa de sancionar o percebido como real, nas mais diversas escolas, tendências e eras do pensamento filosófico, exatamente como sendo real, ou seja, verdadeiro, ao qual empresta sua chancela intelectual, seu selo conceitual.
É evidente que esta posição congenitamente oscilante do trabalho filosófico tem levado a questões de imensa importância. Uma dessas questões diz respeito, indubitavelmente, à relação do conceito com o tempo percebido (aqui: temporalidade). A importância dessa questão é extraordinária; a depender da posição que vai sendo tomada ao longo da história do pensamento filosófico, a compreensão das questões do sentido e do não-sentido de cada momento especulativo - pedras basilares de todo pensamento filosófico - se alterna em função da lógica que, em cada ponto, tem o privilégio de se impor como veraz ao intelecto movido pela congênita curiosidade pelo real. Outra questão magna refere-se à potência crítica da qual o pensamento filosófico não pode abdicar; de fato, não é possível subestimar a força ideológica dos mecanismos de dominação e legitimação do estatuído - o positivismo - que a cada momento tenta, insidiosa ou abertamente, abortar a reflexão; pois, como sabemos no mínimo desde Habermas, “recusar a reflexão, isto é o positivismo” .
III - Luzes e sombras da realidade
Como derivação por assim dizer natural e definitivamente necessária da tensão filosófica original, na qual não têm lugar ingenuidades, é possível o acompanhamento não apenas da linhagem hegemônica do pensamento filosófico - o que se encontra decantado e plasmado nas milhares de dicionarizações conceituais que se enfileiram ao longo do tempo e habitam o lugar-comum da mentalidade inclusive de não-especialistas - como, também, daquele lado obscurecido da história filosófica, os desvios e variações, o recalcado, a sombra que acompanha a luz do intelecto em praticamente todo autor, e em alguns - Pascal, Benjamin - de forma especialmente eloquente. É assim intrínseca à filosofia uma dialética interna sem síntese, à Adorno, que a habita em sua mais densa profundidade.
No que diz respeito à referida relação entre os conceitos e a temporalidade, não parece ser muito difícil perceber que uma das formas mais produtivas de compreender a própria gênese conceitual das categorias é compreender o modo como cada categoria está, em cada momento da história, temporalmente implicada. Porém, cuidado: a imbricação atrás enunciada pode mimetizar exatamente a extrema dificuldade de lidar com conceitos - v. g. “tempo” - que não são e não podem ser, na presente cadeia lógica, exatamente “conceitos”, já que, como se pode observar sem muito esforço, não só não “cabem” em um conceito como sua natureza experiencial é diversa . Pois, diferentemente de realidades cuja percepção se dá condicionada por categorias anteriores, erige-se como possibilidade de todo condicionamento e, portanto, de todo pensamento, inclusive do pensamento conceitual-categorial, filosófico no sentido clássico do termo.
Esse pensamento filosófico no sentido clássico do termo é, portanto, habitado por uma variância em sua íntima constituição, a qual, ao longo dos séculos, aparece com mais ou menos evidência, conforme a disponibilidade e o estilo intelectual dos pensadores em questão. E, como temos consciência da variância atrás referida, é-nos interditado o estabelecimento de hierarquias ou axiologias primárias entre os múltiplos estilos de pensar crítico; tal seria uma simples violência aporética, a cessação desde fora do que mantém o filosofar vivo, da tensão vital que o habita. Luzes e sombras reproduzem a vitalidade do intelecto que se depara com o que não é ele.
IV - Crítica e crise, crise e crítica
Assim, mantida à vista a dialética interna do pensar filosófico desde sua gênese e em todas as épocas que esse pensamento mereceria o nome de filosófico e não meramente de ideológico, afastada a possibilidade do recalque primitivo de um dos pólos da tensão, resta-nos avaliar a possibilidade da fidelização que podemos demonstrar ao próprio pensamento filosófico enquanto crítica do real e do seu sentido. Pois, e tal é desde sempre percebido e incontestado, a crítica nascida da crise do desconforto, da dor, do sofrimento ou do thaumazein ante a exuberância do mundo - portanto, uma quebra do estado de bonomia que uma pretensa neutralidade poderia oferecer -, tal crítica é o coração de todo e qualquer filosofar, que existe em função da requalificação, da configuração intelectual da crise de origem, do choque que o mundo apresenta ao intelecto. Desse modo, temos aqui uma indicação suficiente da pertinência filosófica de uma interrogação, de uma cadeia lógica, de um salto intelectual: o quanto de crítica o motiva, o move e o habita. Mais uma vez, superamos a ingenuidade de uma descrição do passado pretensamente neutra, para adentrarmos o universo da insegurança que a temporalidade em seu decorrer significa.
No presente texto, tomaremos dois - e não mais que dois, por suficientes, e, ademais, por interligados - aspectos críticos do filosofar que, pela própria coerência interna daquilo a que a filosofia se propôs (e não por algum capricho ou predileção particular de alguém), necessitam assumir a visibilidade que efetivamente seja fiel à sua importância no universo dos significantes filosóficos, em fidelidade, igualmente, à motivação primeva de todo e qualquer significante filosófico, em todo o arco de sua história. Tais aspectos são o exorcismo intelectual da temporalidade e a falácia sedutora do “positivismo filosófico”. Tal é necessário para que se entenda em que sentido entendemos a filosofia como se estatuindo em crítica privilegiada da violência.
V - A questão propriamente dita do pensar e sua negação: o exorcismo intelectual da temporalidade e a falácia sedutora do “positivismo filosófico”, ou: a Verdrängung da crítica - exorcismo da temporalidade e “positivismo filosófico” como conteúdo original da violência
“A cegueira é uma arma contra o tempo e o espaço. Nossa
existência é uma única, imensa cegueira, exceção feita às
poucas coisas que nos são transmitidas por nossos míseros
sentidos, míseros por sua índole e por seu alcance. O princípio
dominante do Cosmo é a cegueira. Ela permite a justaposição
de coisas que seriam impossíveis se se vissem umas às outras.
Possibilita a interseção do tempo onde este seria insuportável...”
Elias CANETTI
1- O pensamento ocidental se estrutura, desde os seus primórdios, em torno à questão da diferença. É em torno a este núcleo referencial que os grandes problemas clássicos da filosofia se articulam e amadurecem enquanto, exatamente, problemas fundamentais: particular versus universal, necessário versus contingente, finito versus infinito, sensível versus racional, alma versus corpo - as dualidades opostas são infindas e remetem, em última análise, sempre ao mesmo problema anterior que as gera: à questão da não-unidade - da diferença - da realidade com relação a si mesma. Houvesse tudo em tudo, e o resultado seria a onisciência e a dispensabilidade do pensar; mas é porque há desvãos na estrutura do real (seja esta qual for, porque a concepção de realidade se estrutura justamente em torno a estes desencontros) que o pensamento se gera, e se gera como urgência, urgência de índole cognoscente-classificatória. No início, não é o verbo Ser, mas os desencontros que o verbo Ser tenta de algum modo identificar. Se “isso” fosse desde sempre apenas “isso” - {X = X}, não teríamos provavelmente filosofia alguma, pois a tautologia perfeita desaparece em si mesma inclusive enquanto problema; mas é porque “isso” é também “aquilo”, ou não é somente “isso”, ou deve ser “aquilo”, ou pode ser compreendido de outra forma, ou se constitui em instância de uma síntese maior - {X não é Y} - que o pensamento se põe em marcha em seu processo essencialmente identificante - de forma que, ao fim e ao cabo, “isso” ‘se encontra’, ainda que na órbita fechada de uma racionalidade particular, consigo mesmo. Uma série de funções do processo de identificação, do processo cognoscitivo, se unem nesta tarefa: a localização, a comparação, a nominalização, etc. Quando, ao final de minhas análises, promulgo que “o pinheiro é um vegetal”, isso significa a culminância de um longo e árduo itinerário. Tive de “perceber” a realidade; destacar dali algo especial a ser “classificado”; destacar deste “algo” o seu “conceito” (ou mesmo “construí-lo”); tive de comparar esse “conceito” com semelhantes e dessemelhantes; “atribuir” a esse conceito um “nome”; e, finalmente, propor a identificação entre esse nome e o alvo de minhas atenções. Mas, a rigor, o processo é o desdobramento de uma fórmula mais simples. Inicia com um “o que é isso?” {X=?}; desdobra-se em “isso pertence à classe lógica dos vegetais” {X=Y} e desemboca na nominalização onde se pretende que a essência, ou o essencial do pinheiro seja dado, coincida com seu nome: “isso é um pinheiro”, ou seja, “isso, que é identificado como sendo um pinheiro, é um pinheiro” {X=X}. O que esteve por trás e é anterior a todo esse procedimento, como já dito, é um processo identificante; e esse processo identificante consiste justamente na tentativa de retirar da diferença seu caráter, exatamente, de “diferente” enquanto tal, transmutando-a em diferença lógica, ou seja, em uma espécie de combustível da máquina identificante do pensamento. E é interessante notar que tal dado é comum a todas as grandes lógicas ocidentais, sejam de índole formal, sejam de teor dialético. No primeiro campo, temos a articulação da variedade do mundo em torno a uma referência significante que lhe dá sentido; o verbo Ser, a presença do real em torno às definições da possibilidade de o real ser, exatamente, real. No segundo caso, a diferença - a negação - assume uma posição mais consistente, é levada pretensamente “mais a sério”; mas, pela sua própria dinâmica, a dialética não cessa, porém segue adiante na direção de uma Aufhebung ou síntese que, contendo embora a diferença, não a trata como tal, mas como momento dialético a ser ultrapassado no momento seguinte que é, de uma ou outra forma, re-identificante. E a Dialética Negativa é uma tentativa radical de deter esta compulsão à identidade que afeta o cerne do movimento que leva a diferença a sério ontologicamente .
2 - Assim, podemos considerar que a diferença é a questão propriamente dita do pensar; é sua condição, como é o impedimento de sua completação. A questão da diferença é a provocação a um processo de compreensão do “todo”, ao mesmo tempo em que bloqueia, por sua recorrência incômoda e indeclinável, qualquer invectiva de universalização totalizante. É por isso que o pensamento - e a filosofia, enquanto determinada forma de organização do pensamento - tem de se ver continuamente confrontado com o problema das origens, dos fundamentos, dos pressupostos - ainda que nunca os esgote -, antes de se preocupar com as conseqüências e com os sistemas. É por isso também que o pensar é uma tarefa infinita, e tem de necessariamente reiniciar-se a cada momento. Para além de qualquer fabulação ou imaginação, antes de toda síntese e organização mental, dá-se a diferença: este fato é tão real aqui e agora, nesse exato momento, como o foi para o primeiro pensador que percebeu sua não-coincidência com o que não era ele, e entendeu, segundo sua cosmovisão, a necessidade de superar tal não-coincidência como condição ou realização do processo compreensivo do real enquanto tal. Superar a diferença é o ato fundante que se concebe, muito prematuramente, como movente do grande projeto do pensamento cognoscente, como a base da possibilidade de se pensar a própria condição de inteligibilidade do real.
3 - Inicia-se, portanto, historicamente, o processo de “compreensão apropriativa” da diferença, ou seja, de sua integração a uma ordem maior de sentidos que compõe as diversas formas de avançar do pensamento que pretende conhecer. Tal não se dá por uma escolha consciente de algum gênio isolado, mas por um arranjo pré-original do que se considera implicitamente condição de todo conhecimento: identificar o conhecido consigo mesmo, chegar ao real desde dentro dele mesmo.
Constituir-se-á originalmente a filosofia ocidental por este viés? Muito provavelmente. As questões originais que a tradição nos lega, ainda que fragmentariamente, bem o sugerem; as partículas de poemas cosmológicos, as obscuridades e clarezas dos antigos, assumem essa tonalidade inquieta. Logo se propõem um antes e um além do visível; à sua procura se dedicam as mentes mais agudas. Caminha-se por sobre a inquietude do dado da diferença; mas esta inquietude é a base que, segundo a convergência das energias unificantes, é preciso superar; é necessário chegar à sabedoria, superar as aparências, abordar solidamente o existente, afrontar e vencer a insegurança das não-coincidências, do universo da multiplicidade.
No contexto da presente reflexão, destacaremos agora os aspectos já anunciados: a espacialização (neutralização) da temporalidade e a objetificação intelectual-neutralizante (positivística) do dado que é alvo das energias filosóficas, ou seja, do que se apresenta como real ao intelecto cognoscente.
a) A espacialização da temporalidade